Crônicas & Reflexões

Evandro Henrique Wanderlei Silva, conhecido por Magro (Mago por menor esforço), filho do fotógrafo e bandolinista Henrique Wanderlei, nasceu em Pesqueira no dia 27 de fevereiro de 1952 e faleceu em Recife, no dia 25 de março de 2011, aos 59 anos, após não resistir a um AVC.

O Mago, quando jovem, era o técnico de som do conjunto musical de Pesqueira, Os Admiráveis, contribuindo muito, para o sucesso do grupo.

Depois, trabalhando na Telpe como técnico, teve que ir morar em Arcoverde, mas todo final de semana e férias passava em Pesqueira, donde nunca queria ter saído. Foi um funcionário exemplar, competente e muito querido pelos colegas.

Gostava muito de futebol de salão e de campo, se destacando como um bom goleiro. Como atacante, fazia muitos gols. Também, fazia um trabalho de base, como treinador de times futebol de crianças. 

Ao se aposentar, voltou a residir em Pesqueira, quando então, trouxe de volta o antigo e tradicional Serviços de Alto-falantes de Pesqueira-S.A.P, sempre com a visão para o futuro. Com a ajuda da Internet, colocou o SAP na rede mundial e fez transmissões, ao vivo, de áudio e imagens, de eventos importantes, como o Carnaval e Encontro dos Ex-alunos de Pesqueira.

Infelizmente, não conseguiu concluir seu último intento, que era uma Rádio FM Educativa e Cultural.

O Mago documentava todos os acontecimentos da cidade, com sua filmadora de fita VHS, inclusive, fazendo entrevistas.

O Mago foi um grande cidadão, fraterno, solidário, incentivador, uma pessoa do bem.

Infelizmente, o Mago partiu muito rápido, deixando muito por fazer nessa vida, além da esposa Vanja, três filhos e três netos.

Em seu leito de convalecença, apesar da sua crítica situação de saúde, ele conseguiu abrir os olhos, me reconher, falar, apertar e beijar a minha mão. Foi a despedida de um grande amigo de muitos anos, um irmão para mim.

Sem ele, ficou um vazio muito grande e um luto para sempre.

Valeu, Mago!

Termino estas palavras com emoção e lágrimas.

Turma da Velha Guarda - Pesqueira-PE


JUBILEU DE DIAMANTE, OU SEJA, SESSENTA ANOS DO  ACONTECIMENTO

 

 

Parece que foi ontem... Naquela quarta-feira, às 21:15h, 02 de Dezembro de 1953, era lançado ao AR o programa Serões e Serestas pela Rádio Difusora de Pesqueira, Z.Y.K.-25, com a Turma da Velha Guarda, formada por Osvaldo Almeida com seu saxofone, Henrique Wanderley com o seu bandolim, Eurivaldo Jatobá com o seu violão, Chiquinho Amaral com o seu cavaquinho, José Duque com o seu Violão, Antônio Caboclo com o seu violão, Zezinho Parabellum com o seu pandeiro e o cantor Ruy Sivini com a sua voz de eterno seresteiro.

Foi um programa com nove componentes, inclusive este que vos escreve, que redigiu em 6 páginas todo o desenrolar do programa que entrava no AR para satisfazer aos ouvintes deste Nordeste imenso que eram ligados na Rádio Difusora de Pesqueira.

 Foi tão grande a recepção com cartas que recebemos de Garanhuns, de Arcoverde, de Petrolina no distante sertão de nosso Estado e o programa foi ouvido em Picos no Piauí, onde uma ouvinte por nome de Maria Cleonice dos Santos, além de exaltar as virtudes dos componentes da Turma da Velha Guarda, fez um pedido para que o cantor Ruy Sivini interpretasse Chão de Estrelas, uma canção de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa. Recebemos da direção geral da Empresa Jornal Comércio, os mais altos elogios, pela apresentação, que foi ouvida por um funcionário que estava escutando as programações das emissoras do interior: Garanhuns e Caruaru, que tinham sido inauguradas em 26 de maio e 06 de setembro de 1951, e Limoeiro no dia 17 de outubro de 1952.

Foi gratificante para todos que faziam a Turma da Velha Guarda, a carta recebida pela direção da emissora, enviada por Amarílio Nicéias, dando os parabéns por um programa tão bem elaborado e pela apresentação dos valores da terra do tomate.

Dos nove componentes da turma daquela maravilhosa noite, só resta este que vos escreve, Laurene Martins.

 

Pesqueira, 02 de dezembro de 2013.

  Sei que estou enchendo o saco dos meus raros leitores com as minhas “reminiscências” e arengas. Pelejo para virar o disco mas não consigo, volta e meia, mesmo sem querer, tenho uma recaída, é uma cantilena indo e voltando, parece até conversa de bêbado.

   Tenho mais um defeito: os repetecos, às vezes esqueço que já contei determinado causo e, pimba!, repito o dito cujo. É coisa, admito, de velho borocoxô.

   Olha, gente, como até os postes da Celpe sabem, sou um socialista de berço.  Empedernido. Nem a queda do Muro de Berlim e o resto das pedras do dominó do leste europeu, fizeram com que deixasse de acreditar no comunismo, embora me considere cristão. Detalhe: nem pertenço ao partido comunista e nem professo nenhuma religião.

   Bom, mas mesmo sendo “ideológico”, não raro sempre cometo deslizes e pecadilhos anti-socialistas. Foi o que aconteceu certa feita quando, como disse Adelino Moreira, numa música, fiquei entre a cruz e a espada, ou seja, entre uma galinha à cabidela e uma conferência de Luíza Erundina, que na época era uma das maiores estrelas do socialismo.

   O causo aconteceu quando eu apresentava, pasmem, o Programa Pesqueira Debate na Rádio Difusora de Pesqueira, aos sábados, algo surrealista, acreditem, porque tenho a voz rouquenha e antimicrofônica, mas o programa, pasmem, de novo, era o de maior audiência da Rádio. Num desses programas, junto com os companheiros que me ajudavam a fazê-lo, sozinho o gogó pifava, entrevistamos o empresário Mário Paulo, um dos proprietários do Hotel Acauã, na época o melhor hotel do interior de Pernambuco (não riam, os mais moços, ele hoje pode estar em ruínas, mas na época era arretado). Bem, depois do programa, Mário Paulo convidou a mim e aos companheiros para degustarmos  uma galinha à cabidela, salientando que era caipira, no hotel. E naquele precinho zero oitocentos. Aceitamos na hora que nem caldo de cana.

   Quando chegamos fomos logo nos instalando numa mesa privilegiada na beira da piscina, imaginem o que dava para descortinar no local. Trouxeram logo umas cervejinhas estupidamente geladas, acompanhadas de uns pratinhos de tira-gosto de linguiça do sertão e de queijo do reino. Era o “esquente”, enquanto aguardávamos o prato de resistência, a galinha à cabidela. Pedi também uma garrafinha de Pitu e limão para alternar com as cervejinhas. Depois  de uma meia hora, eis que serviram a ansiada galinha ao molho pardo, ela veio guarnecida com feijão verde, farofinha e arroz bem soltinho. Mas, fiel  a um costume antigo, já tinha mandado comprar na padaria do português, que ficava nas imediações do hotel, meia dúzia de pão francês bem quentinho para molhar no caldo da galinha. Adoro comer cabidela molhando o pão francês no caldo.

   Quando parti um dos pães e ia mergulhando no caldo, um garçom me interrompeu avisando que havia um telefonema urgente para mim no escritório do hotel, naquele tempo não havia a febre do celular que há hoje. Coloquei  o pedaço de pão em cima de um prato e, puto da vida com a maçada, fui atender ao telefonema. Era o presidente do PSB,  Joaci Galindo, me chamando urgente para ir assistir, não me lembro do local, a uma conferência de Luíza Erundina que havia chegado a Pesqueira  e iria fazer uma palestra para os esquerdistas. Não disse que iria e nem que não iria, mas disse que daria o recado aos companheiros. Mas voltando à mesa uma dúvida shakespearena já se instalara na minha mente: Cabidela ou Erundina, eis a questão!

   Dei o recado. Paulo Melo, que não era socialista, só fez rir, zonando de nós, socialistas. Ronaldo, com uma asa da galinha e tomando uma cervejinha deu um muxoxo, sinalizando que iria optar pela cabidela. Rolim, terminando de comer uma coxa da penosa, levantou-se e afirmou que iria, não poderia faltar a um contato com uma das maiores figuras do socialismo, e se dirigindo a mim, perguntou: -  Vai ou não vai? Olhei para a galinha no prato, para o acompanhamento, os pães quentinhos,  as cervejas, a Pitu e, aí, decidi optar por ficar no hotel. Só Rolim foi, eu e Ronaldo farrapamos com  socialismo.

   Eu nunca me arrependi, principalmente porque depois da cabidela chegou um bode guisado arretado, as cervejas continuaram chegando e a Pitu era de uma reserva antiga, a tampinha estava até enferrujada e o rótulo desbotado. E para completar chegou no recinto, na nossa mesa, o seresteiro do agreste, Zé Amaral, com o violão, aí virou seresta. Sei que pequei contra o socialismo, mas não sei  ser infiel a uma galinha à cabidela. Sou um socialista meio fraco. Pardón, Erundida. Continuei admirando a grande líder socialista. Mas nunca mais tive oportunidade de conhecê-la, mas já galinha de cabidela, apesar de fazer regime, de vez em quando degusto uma. É o meu prato preferido, desde menino.

Quando eu estudava o curso primário no Centro Educativo Leonardo Couto, em Arcoverde, o equivalente ao Rui Barbosa, em Pesqueira, havia a exigência - toda semana - dos alunos se  submeterem a um ditado de 30 linhas do livro de leitura e, ainda, a escreverem uma carta, uma descrição ou uma composição, também de 30 linhas, além da leitura em público de um trecho desse danado livro de leitura. Havia ainda uma sabatina de aritmética. Era obrigatório, ninguém podia se esquivar, nem dando parte de doente, no que eu era especialista mas nunca lograva êxito. Era preciso estudar, saber ler, entender o que lia, escrever e fazer contas, as tais operações fundamentais, inclusive frações.

Tenho a mais absoluta certeza, amigos, que o pouco que aprendi a escrever, principalmente meus escritos para os jornais, a rádio e o blog, eu devo àqueles exercícios escolares. E também eles foram indispensáveis para que fosse aprovado no concurso do BNB. Fui um bom aluno no primário, só desbundei para a malandragem no ginasial.

Pena é que hoje esse tipo de exercícios não sejam hoje tão estimulados como ontem, no nosso querido tempo do ronca. Entendo que as épocas são diferentes. Não posso negar os avanços tecnológicos, inclusive essa excitação em torno dos tablets (é a febre das escolas em Pernambuco). Uma pergunta não pode calar: de que serve saber manejar o tablet se o aluno não consegue escrever um mísero bilhete? De que adianta essa maquininha se  o aluno ainda conta nos dedos? Que adianta essa ferramenta se o aluno lê mal e não compreende o que lê?

 Eu sei e admito plenamente que precisamos atualizar o ensino de acordo com as novas tecnologias. Mas não se pode abandonar o essencial: o ensino daquilo que é fundamental: ensinar a ler, escrever e contar.

Tem mais: não se pode deixar de estimular os jovens a pensar, a alinhar suas idéias, a questionar as coisas. Sem se fazer isso, jamais o jovem vai adquirir cultura. Do jeito que estão fazendo querem mesmo é idiotizar em grande escala os jovens.

Reconheço que não tenho currículo que me dê condições para criticar o sistema educacional, não sou gestor  (o diretor de escola ganhou agora esse apelido), nem professor, nem intelectual. No entanto, camaradas, talvez porque seja um rebelde pela própria natureza, não me contenho ante o quadro de mediocridade por que passa o ensino no nosso país. Quando comparo o ensino fundamental de ontem com o de hoje, sou obrigado a dizer que o ensino do tempo do ronca  era muito mais eficiente. Sim, porque o aluno do primeiro grau, que terminava a quinta-série, saía da escola sabendo ler corretamente, entendendo o que leu,escrevendo razoavelmente, fazendo as quatro operações fundamentais, resolvendo problemas, inclusive com frações, com noções de ciências e conhecimentos de história e geografia. Os jovens de hoje que concluem o segundo grau saem sem saber ler direito e, pior, sem entender o que leram, escrevendo mal, sem conseguir escrever um bilhete, contando nos dedos e são um zero em conhecimentos gerais. Há exceções, admito.

Por tudo isso, gente, sinto saudades da escola do tempo do ronca. A minha geração foi privilegiada. Seria bom que as autoridades da área da Educação refletissem sobre este fato. Não se pode deixar  de avaliar o ensino do passado, que se atualize o ensino, mas ensinando de verdade. O tablet é um ferramenta que não dispensa o aprendizado tradicional. Muita gente precisa sossegar a periquita na sua excitação sobe a prioridade da tecnologia. São uns tremendos cafonas. Viva a escola do tempo do ronca.

Grande parte dos foliões ainda estão de ressaca. Mas com saudade do carnaval. Por outro lado, os que não gostam do carnaval estão aliviados. E assim caminha a humanidade.

Passei o carnaval em Pesqueira. Devido à madame asma, apenas sou um mero espectador, mas olho tudo e anoto. E vibro com alegria dos foliões. Sempre fui e, graças a Deus, continuo sendo, um homem do povo, se bem que me dê ao luxo de censurar o próprio povo quando acho que ele errou. Sou um homem do povo à minha maneira. E priu.

Não vou analisar o carnaval de Pesqueira. Vou apenas fazer uma advertência: daqui a alguns anos ninguém vai conseguir andar nas ruas do centro durante o carnaval porque as ruas estão sendo tomadas, invadidas, assaltadas por barracas que privilegiam meia dúzia em detrimento do povo. E a mesma forma a dobradinha imoral dos camarotes em frente ao palco. Um privilégio para os novos ricos e turistas farofeiros. Carnaval se brinca é na rua, no chão, no pedal.

A outra advertência é que o Lira é mais Lira quando sai da concentração animado pela nossa Banda de Música. Quando chega ao trio-elétrico, a coisa fica meio choca. O trio é imenso, e o espaço é de menos de 200 metros de trajeto. Um absurdo. No passado era mais animado. Não era preciso trio-elétrico, bastava um pequeno caminhão, uma caixa de som e a nossa banda, e desimpedirem as ruas, mandando as barracas para outro local.

No mais, amigos, um cara do Recife que esteve no nosso carnaval e viu o de outras cidades, me disse uma verdade indiscutível: dentro em breve carnaval, São João e qualquer festa do interior financiada pelo governo serão todas iguais, tão parecidas como dois japoneses. Estamos mesmo perdendo o que é mais importante, nossas peculiaridades e nossa memória municipal. E haja ressaca.

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