A FELICIDADE

Criado: Domingo, 19 June 2011

 

Nesta vida é muito difícil a pessoa ser justa. Mais difícil ainda é ser independente. Não vou falar em idealismo porque isso - para a maioria - é que nem fruta braba.

Da mesma forma, em princípio, talvez seja impossível ser feliz, se bem que quando ouço aquela música Sonho Impossível, cantada por Bethânia, é uma versão do Chico Buarque, eu acho que é possível ser feliz, principalmente se ouvindo a música tomar umas e outras. Ri muito quando, recentemente, um amigo meu afirmou que só os burros são felizes porque não raciocinam, não entendem nada, aceitam passivamente as chicotadas. É claro que é um tremendo exagero, e uma injustiça para com esses animais que tanto ajudam o homem. Foi num deles, frise-se, que José e Maria fugiram levando o Menino Jesus.

Mas voltemos ao tema da felicidade. O que é a felicidade? Será ganhar na loteria? Será enricar roubando e sonegando impostos? Será feliz na vida que vence derrubando o próximo? Quem arma trapaças no breu das tocas? Quem quer o poder pelo poder, o poder para se locupletar, para perseguir? Será feliz quem utiliza ou incentiva a violência? Será feliz quem se satisfaz com a desgraça dos semelhantes? Ou será a felicidade um sonho impossível?

Em primeiro lugar, reconheço que ser feliz não é nada fácil. Realmente, em alguns casos, como disse Gonzaguinha no seu antológico samba, "depende de saúde e sorte". Mas, há também, a felicidade de ser útil, verdadeiro, gente. A felicidade de plantar uma árvore (isto no sentido mais amplo possível), criar decentemente os filhos, manter a família unida e ser respeitado por ela, ser fraterno e, enfim, a felicidade de cumprir a passagem na terra como um verdadeiro cristão e cidadão sem máculas, sem resquícios de amoralidade. Acredito piamente que a pessoa pode e deve ser feliz, mesmo não sendo rica, aliás, numa sociedade justa e ética, fraterna e cristã, não deve haver excluídos, nem ricos. Todos devem viver decentemente. Penso, pois, que viver uma vida honesta, otimista, amando seus irmãos, sendo solidário e, principalmente, sendo humilde (aceitando ser apenas um eterno aprendiz como diz o samba citado), é possível e deve ser, portanto, um ideal de vida. O que traz a infelicidade é a inveja, a ambição desmedida, o ódio, o apego aos bens materiais, o culto ao bezerro de ouro, o mau-caratismo em todos os seus níveis e nuances, a desonestidade, a prepotência e a violência.

Vivemos numa sociedade capitalista, vegetando dentro de uma filosofia fria que busca unicamente o lucro (não importa que seja o lucro desonesto) que premia os desonestos, acoberta os violentos, defende os cínicos, corteja os bajuladores, coloca debaixo do tapete o lixo das safadezas e, acima de tudo, promove a impunidade. E faz isso em prejuízo dos excluídos. Esta sociedade é perversa.

Apesar disso, mesmo inconformados, não se pode abrir mão da necessidade de buscar a felicidade. É preciso não ter medo de ser feliz. Odiar o mundo e as pessoas é colaborar com o sistema de capitalismo selvagem. É fazer o jogo dele. O ódio gratuito não constrói nada. Torcer para o circo pegar fogo é um absurdo. Não respeito quem faz a apologia do ódio total. É fascismo. Penso que é o amor que dá forças para lutar pelos oprimidos e para reformar a sociedade. Não se pode prescindir da emoção do amor para colecionar ódios. Isso só traz, repito, mais infelicidade. Quem faz sua parte conscientemente, aqueles que, mesmo em face das angústias e agruras, conseguem ser conscientes e fortes, os que lutam e endurecem as posições mas não perdem, como dizia  Che, a ternura jamais, estes são felizes. É preciso não perder esses sentimentos positivos: o amor, a ternura, a solidariedade. Eles são fundamentais para que o ser humano se complete.

O grande mal de muita gente é vegetar em vez de viver. É também pensar que a felicidade é uma ciência exata quando ela é um sentimento inerente ao ser humano. A felicidade é possível, mais: ela pode parecer estritamente particular, mas não é. Ninguém é feliz sozinho. A felicidade é coletiva até porque a obra do Criador foi realizada tendo em vista uma humanidade feliz. Já se disse que viver é perigoso. Parece que Fernando Pessoa num verso lindo afirmou: "Navegar é preciso, viver não é preciso". Só que vale a pena pagar o preço de viver com dignidade, bem como de navegar sempre buscando o porto da felicidade, mesmo que isso, espero que não seja o caso, seja um sonho impossível.