O CASAMENTO DA COCADA DE SAL

Criado: Terça, 05 July 2011

O grande sonho de Maria era casar com um cara rico. Não importava quem ele fosse, bastava que fosse abonado. Detestava viver naquela casinha do Alto do Peba. A casa era pequena e acanhada, não tinha nada a ver com os sonhos de grandeza de Maria. A sua família era pobre, o pai era pedreiro e a mãe costureira. Dos cinco filhos do casal ela era a mais velha. Tinha 18 anos e era muito bonita.

Os pais faziam de tudo para agradá-la. Era a menina dos seus olhos. Passavam dificuldades para educá-la, mesmo na rede pública. Ela, porém, tinha vergonha da família, jamais se referia a ela nas conversas com as colegas de escola e colégio. A sua maior frustração era não ter nascido rica. Invejava demais as moças ricas, mas ódio só sentia pelos pobres, inclusive pelo filho de um vizinho, um rapaz de sua idade que era apaixonado por ela. Ele, no entender dela, tinha um grande defeito: era pobre. Maria não cumprimentava ninguém na sua rua. Era tão impopular que ganhou o apelido de "Cocada de Sal".

Assim ia levando a vida, sempre sonhando alto com um bom partido e com uma imensa raiva roendo dentro de si, odiava até a própria família, até o dia que conheceu Marcos, um moço com pinta de rico que chegou na cidade, parente de um figurão do lugar. Ele logo colocou os olhos na morena bonita e pobre do Alto do Peba. E ela nele, claro.

O rapaz era simpático, falante e alinhado, mas o que Maria viu nele foi somente a possibilidade de obter a sua carta de alforria para sair do meio em que vivia e que achava indigno dela.

Do simples namoro na praça e no escurinho do cinema avançaram para o bate-coxa dos bailes e daí chegaram ao relax nos motéis. Marcos não prometeu a ela só a terra, mas também o céu e o mar. Os pais dela, após os cochichos da vizinhança, tentaram adverti-la com aqueles conselhos de praxe, mas isso entrou por um ouvido dela e saiu pelo outro. Ela queria casar e para isso faria o que Marcos quisesse. Ora, pensava, o cara tinha falado até em comprar as alianças e prometeu que depois do casamento levaria ela para morar numa big casa na beira da praia. Por que iria duvidar dele?

O figurão parente de Marcos ainda tentou demovê-la do seu caso com o rapaz, mas a moça achou que ele estava apenas querendo afastá-la porque ela era pobre.

A porrada aconteceu dois meses depois: Marcos deu no pé e não deixou sequer um mísero bilhete. Simplesmente se mandou sem mais aquela. Era um tremendo pilantra, um conquistador contumaz, um malandro inveterado. A pobre moça quando caiu na real ficou desesperada e ingeriu um tubo de comprimidos, mas levada, às pressas, para o hospital uma lavagem estomacal resolveu o problema. Ficou o outro problema: a gravidez. Tentou abortar ingerindo chás, mezinhas e toda sorte de raízes. Não deu certo, decidiu então a última cartada do desespero: o aborto numa papa anjo do final da rua. Não foi preciso...

Quem salvou Maria e o seu bebê foi o filho do vizinho, o rapaz que era apaixonado por ela. Ciente do caso, tamanho era o seu amor pela moça, que lhe propôs casamento assumindo a futura paternidade. Pragmática, sabia que os ventos da realidade haviam destruído o seu castelo de areia, ela aceitou a proposta do rapaz.

Casou de vestido branco, véu e grinalda, tudo nos trinques. O casamento foi no civil e na Igreja. Ela deu um chute no pau da barraca do seu orgulho e ficou humilde e popular. É, pasmem, quase feliz. Só não é totalmente feliz porque de vez em quando lhe bate uma certa tristeza, um banzo dos tempos dos sonhos, mas é coisa rápida, nada de sério, nada que resista a uma canção brega e à rotina dos afazeres domésticos. De uma coisa ela em certeza: o sonho que acalentava só acontece nas novelas da tevê.