CABIDELA OU ERUNDINA?

Criado: Terça, 01 January 2013

  Sei que estou enchendo o saco dos meus raros leitores com as minhas “reminiscências” e arengas. Pelejo para virar o disco mas não consigo, volta e meia, mesmo sem querer, tenho uma recaída, é uma cantilena indo e voltando, parece até conversa de bêbado.

   Tenho mais um defeito: os repetecos, às vezes esqueço que já contei determinado causo e, pimba!, repito o dito cujo. É coisa, admito, de velho borocoxô.

   Olha, gente, como até os postes da Celpe sabem, sou um socialista de berço.  Empedernido. Nem a queda do Muro de Berlim e o resto das pedras do dominó do leste europeu, fizeram com que deixasse de acreditar no comunismo, embora me considere cristão. Detalhe: nem pertenço ao partido comunista e nem professo nenhuma religião.

   Bom, mas mesmo sendo “ideológico”, não raro sempre cometo deslizes e pecadilhos anti-socialistas. Foi o que aconteceu certa feita quando, como disse Adelino Moreira, numa música, fiquei entre a cruz e a espada, ou seja, entre uma galinha à cabidela e uma conferência de Luíza Erundina, que na época era uma das maiores estrelas do socialismo.

   O causo aconteceu quando eu apresentava, pasmem, o Programa Pesqueira Debate na Rádio Difusora de Pesqueira, aos sábados, algo surrealista, acreditem, porque tenho a voz rouquenha e antimicrofônica, mas o programa, pasmem, de novo, era o de maior audiência da Rádio. Num desses programas, junto com os companheiros que me ajudavam a fazê-lo, sozinho o gogó pifava, entrevistamos o empresário Mário Paulo, um dos proprietários do Hotel Acauã, na época o melhor hotel do interior de Pernambuco (não riam, os mais moços, ele hoje pode estar em ruínas, mas na época era arretado). Bem, depois do programa, Mário Paulo convidou a mim e aos companheiros para degustarmos  uma galinha à cabidela, salientando que era caipira, no hotel. E naquele precinho zero oitocentos. Aceitamos na hora que nem caldo de cana.

   Quando chegamos fomos logo nos instalando numa mesa privilegiada na beira da piscina, imaginem o que dava para descortinar no local. Trouxeram logo umas cervejinhas estupidamente geladas, acompanhadas de uns pratinhos de tira-gosto de linguiça do sertão e de queijo do reino. Era o “esquente”, enquanto aguardávamos o prato de resistência, a galinha à cabidela. Pedi também uma garrafinha de Pitu e limão para alternar com as cervejinhas. Depois  de uma meia hora, eis que serviram a ansiada galinha ao molho pardo, ela veio guarnecida com feijão verde, farofinha e arroz bem soltinho. Mas, fiel  a um costume antigo, já tinha mandado comprar na padaria do português, que ficava nas imediações do hotel, meia dúzia de pão francês bem quentinho para molhar no caldo da galinha. Adoro comer cabidela molhando o pão francês no caldo.

   Quando parti um dos pães e ia mergulhando no caldo, um garçom me interrompeu avisando que havia um telefonema urgente para mim no escritório do hotel, naquele tempo não havia a febre do celular que há hoje. Coloquei  o pedaço de pão em cima de um prato e, puto da vida com a maçada, fui atender ao telefonema. Era o presidente do PSB,  Joaci Galindo, me chamando urgente para ir assistir, não me lembro do local, a uma conferência de Luíza Erundina que havia chegado a Pesqueira  e iria fazer uma palestra para os esquerdistas. Não disse que iria e nem que não iria, mas disse que daria o recado aos companheiros. Mas voltando à mesa uma dúvida shakespearena já se instalara na minha mente: Cabidela ou Erundina, eis a questão!

   Dei o recado. Paulo Melo, que não era socialista, só fez rir, zonando de nós, socialistas. Ronaldo, com uma asa da galinha e tomando uma cervejinha deu um muxoxo, sinalizando que iria optar pela cabidela. Rolim, terminando de comer uma coxa da penosa, levantou-se e afirmou que iria, não poderia faltar a um contato com uma das maiores figuras do socialismo, e se dirigindo a mim, perguntou: -  Vai ou não vai? Olhei para a galinha no prato, para o acompanhamento, os pães quentinhos,  as cervejas, a Pitu e, aí, decidi optar por ficar no hotel. Só Rolim foi, eu e Ronaldo farrapamos com  socialismo.

   Eu nunca me arrependi, principalmente porque depois da cabidela chegou um bode guisado arretado, as cervejas continuaram chegando e a Pitu era de uma reserva antiga, a tampinha estava até enferrujada e o rótulo desbotado. E para completar chegou no recinto, na nossa mesa, o seresteiro do agreste, Zé Amaral, com o violão, aí virou seresta. Sei que pequei contra o socialismo, mas não sei  ser infiel a uma galinha à cabidela. Sou um socialista meio fraco. Pardón, Erundida. Continuei admirando a grande líder socialista. Mas nunca mais tive oportunidade de conhecê-la, mas já galinha de cabidela, apesar de fazer regime, de vez em quando degusto uma. É o meu prato preferido, desde menino.