OS CULPADOS

Criado: Sábado, 02 January 2010

Segundo aprendemos nas aulas de catecismo, Adão e Eva descumpriram as normas do paraíso, foram expulsos e de imediato, colocaram a culpa na serpente, pelo desvio de conduta.

É claro que uma história que se iniciou dessa forma, não poderia ganhar um enredo diferente. Para tudo, arranjamos um culpado, sem a menor cerimônia.

Se o nosso time perde, sem pestanejar, jogamos a culpa no juiz. Em segundo lugar, aparece o treinador como vítima preferida. Depois, admitimos que zaga esteve mal, o goleiro “papou” um frango, o meio de campo não deu combate e, por fim, o ataque não funcionou.

Já o pescador, quando não faz uma boa pescaria, inventa que o clima mudou de repente, alguém botou o olho grande, que levou a isca errada, e vai por aí.

A nossa geração conheceu um sindicalista que passou um tempão culpando o FMI, os banqueiros, as classes produtoras, os políticos da ARENA, do PFL, os americanos, os usineiros, o Congresso Nacional e a falta de uma reforma agrária, pelas desigualdades sociais.

Depois de três tentativas, sentou na cadeira de presidente, inclusive com a minha ajuda. Conhecendo o outro lado do balcão, viu que as coisas são bem diferentes e tratou logo de mudar o teor dos seus discursos e de arranjar outras desculpas pelas suas falhas.

Aliou-se aos picaretas que dizia existirem lá no Congresso e ficou na dependência deles, ao ponto de entregar-lhes os mais altos cargos do seu governo.

Colaborou com o FMI, protegeu os donos dos bancos e esqueceu até dos aposentados que fingia defender. Passou, então, a não saber das coisas e apesar de não ler jornais, escolheu a imprensa como a maior culpada por todas as notícias negativas saídas de Brasília.

Não é novidade para ninguém que politicamente, o Brasil vive uma enorme crise moral. Mesmo com os avanços conseguidos como a transparência, a liberdade de imprensa, o cidadão mais vigilante, não dá para esconder que a classe política está nivelada por baixo. Os tribunais estão abarrotados de processos contra vereadores, prefeitos, deputados, senadores e governadores. As razões são várias, pois cada qual tem o seu jeito de “fazer arte” na política.

Diante dessa avalanche de acusações que correm na Justiça e da morosidade verificada nos julgamentos, perguntamos: De quem é a culpa?

Primeiramente, mesmo na condição de leigo, consideramos a nossa legislação eleitoral muito branda. Mas seria muita ingenuidade esperar que fosse diferente, já que grande parte dos nossos legisladores (deputados e senadores) tem contas a acertar com a Justiça.

Em segundo lugar, reconhecemos que nós, os eleitores, temos grande parcela de culpa. Votamos por interesse pessoal, sem pensar na coletividade. Elegemos pessoas que nos parecem simpáticas e boazinhas. Damos o voto ao um amigo, mesmo sabendo dos defeitos dele. Colocamos pessoas incapazes no poder. Votamos até por vingança contra alguém.

Somos culpados também, porque se estamos do lado do governo, dizemos que tudo está perfeito, não existem erros. Falta-nos, pois, coragem para discordar dos chefes. Mas se não conseguimos uma “boquinha”, dizemos que tudo está errado, apostamos no quanto pior, melhor e torcemos para que nada tenha êxito, quando o mais sensato seria fazer oposição de forma construtiva, fiscalizando e denunciando, justamente como deveria agir todo cidadão.

Se você já é coroa, não fique triste, nem perca a esperança. Com muita força de vontade e mudando de atitude, poderá contribuir para modificar essa situação.

Mas se ainda é jovem, melhor. O futuro lhe pertence. Haja com convicção, não aceite ser enganado, diga não à corrupção. Mostre-se um exemplo para essa geração repleta de interesseiros. Diga não aos que só pensam em levar vantagem.

Lembre-se de que o processo democrático precisa de suas decisões como cidadão íntegro, independente, consciente e ético. Nós, é que não soubemos dar bons exemplos. Agimos com indiferença e egoísmo. Não pensamos em você. Desculpe-nos pela nossa falha.