A MELANCOLIA DO FREVO

Criado: Quarta, 20 January 2010

O Frevo pernambucano tem uma característica bastante contraditória no conteúdo de sua letra e melodia. Como podemos entender e aceitar que um gênero musical que serve para levar os foliões à loucura nas ruas e nos clubes, onde se esbaldam de alegria, tenha a tristeza, a melancolia, a solidão, e a saudade como temas principais?

Apesar de já ter lido muita coisa sobre esse estranho fenômeno e até o fato de já ter ultrapassado a marca de 50 carnavais, ainda não consegui explicações convincentes para esse aspecto curioso que envolve o nosso principal ritmo carnavalesco.

Não sinto o menor constrangimento em dizer que nos meus tempos de jovem sonhador, quando os carnavais se constituíam em festas onde o romantismo aflorava e contaminava os foliões, sentia arrepios e os olhos marejavam ao ouvir os frevos dos irmãos Valença, Nelson Ferreira e Capiba, cantados por Claudionor Germano, Expedito Baracho, Ângela Maria, Francisco Carlos e Nelson Gonçalves, nas rádios e no Serviço de Alto Falante de Pesqueira (S.A.P.)

Quem se considerar blindado e inatingível pela forte dose de sentimentalismo existente nas letras e melodias dos frevos, é só colocar um disco na radiola, ouvir e prestar atenção nas letras, para logo constatar que não estou exagerando.

Aproveito, inclusive, a oportunidade, para sugerir alguns para que os interessados possam conferir a veracidade do que estou afirmando.

FREVOS DE BLOCO E CANÇÃO:

Sorri Pierrô e Cabelos Brancos de Nelson Ferreira. Mandarim, Saudade e O Teu Lencinho, dos irmãos Valença. Frevo da Solidão, Você Faz Que Não Sabe, Trombone de Prata e OH! Bela, de Capiba. A Dor de Uma Saudade, de Edgard Moraes. Voltei Recife, É de Fazer Chorar e Novamente, de Luiz Bandeira. Frevo Nº 1, de Antônio Maria. Você Está Sozinha, de Gildo Branco e Waldemar de Oliveira. Você Gostou de Mim e Último Regresso, de Getúlio Cavalcanti. Boneca e Ingratidão, de José Menezes.

FREVOS DE RUA:

Estes não possuem letra. São executados por orquestras e têm andamento mais rápido. Mas nem isto lhes tirou a beleza e a carga sentimental, pois suas melodias foram geralmente compostas por grandes maestros que capricharam nas notas e causam a sensação de uma flechada no coração, quando os ouvimos.

Querem alguns exemplos? É só escutar Lágrimas de Folião e Retalhos de Saudade de autoria de Levino Ferreira. Duas Épocas e Recordando a Tabajara, de Édson Rodrigues. Fogão, de Sérgio Lisboa. Mordido, de Alcides Leão. Cocada, Corisco, Lampião e Pilão Deitado (nomes de cangaceiros) compostos pelo paraibano Lourival Oliveira.

E, finalmente, o hino do nosso carnaval: VASSOURINHAS (instrumental) de Mathias da Rocha.

Na certeza de que deixei de enumerar dezenas de pérolas do nosso cancioneiro carnavalesco, peço desculpas pela ousadia e pela omissão, pois isto é apenas uma tentativa de expor a minha modesta opinião na condição de admirador do autêntico FREVO PERNAMBUCANO, cujo ritmo é capaz de contagiar até uma criança de braço, fato já presenciado no meu estabelecimento comercial.