Majestade Lira da tarde

Criado: Sábado, 23 January 2010
Desde os tempos de moleque fiz o roteiro do mestre Chiquinho, nosso maior arquiteto carnavalesco, mestre da festa do povo, artista que deixou um legado infinito para todas as gerações da minha amada Pesqueira. O toque do trompete sempre intimava todos os pesqueirenses e visitantes, que se tornavam súditos, a saudar a Majestade Lira da Tarde, a cair no frevo, esquecer todos os problemas, mágoas e desamores. No corre-corre contra o tempo, ao entrar rua  Barão de Cimbres e avistar o seu  estandarte fremente, tinha a certeza que  um tufão de frevo estava a se formar, e o carnaval do Lira iria começar a transformar as pessoas. Um pulo pra cá, um pulo pra lá, abraços e sorrisos, era o Lira transfigurando os mais sisudos  e chatos do cotidiano em doces foliões da alegria.

Lira da tarde


 

Porém, em plena contagem regressiva para o carnaval de 2009 fui surpreendido com a notícia de que o Lira não iria desfilar no carnaval. Não acreditei! Apesar de saber que o amado bloco não saiu no domingo e segunda-feira, saí de Garanhuns na terça de carnaval com a esperança de fazer o roteiro sagrado com a multidão. No aquecimento da Barão de Cimbres, tomaria duas cervejas; na Eulampio Cordeiro, um abraço num amigo distante; na 13 de maio, suado e já com cheiro de povo, viria os Neves  a admirar a multidão; no compasso,  na Zeferino Galvão, soltaria o corpo no ritmo do tarô e do bombo; mais um gole de cerveja para subir a Anísio Galvão, mela-mela e alegria com os desdentados; já na Cardeal Arcoverde, a reta do frevo saudaria com  a alegria o palácio episcopal;  o sol começando a se esconder na Dom José Lopes, soltaria a voz: é o Lira, é o Lira , é o Lira da tarde a todo vapor.

Que nada! A notícia era verdadeira mesmo. Não teve Lira. Faltou a alegria do povo. O carnaval não foi o mesmo de carnavais passados. O nó da frustração tomou conta da minha goela e a vontade de chorar me venceu no quarto de hotel. O Lira não veio com sua alegria, não caí no frevo, não esqueci os problemas, mágoas e desamores.

Mas como dizem os mais velhos: depois de uma trovoada  sempre haverá um lindo dia de sol. Que este ano, na sua volta triunfal, o Lira brilhe de novo, fazendo o povão delirar de alegria nas ladeiras de nossa cidade. Que tua apresentação seja mágica e se torne inesquecível na memória do povo. No aquecimento na Barão de Cimbres, em vez de duas, serão quatro cervejas; na Eulampio Cordeiro saudarei todos amigos que avistar; na 13 de Maio, verei a alegria dos Neves, mas com as mãos erguidas ao céus agradecerei a Deus por estar no meio do povão;  na Zeferino e Anísio Galvão, o frevo de Sergio Amaral comandará minhas emoções; no grande palco que é a Dom José Lopes, apoteose total. Pernas bambas, corpo suado, sorriso total, meu, seu e de todos.

Chiquinho, onde estiver, com certeza estar feliz, pois a Majestade Lira voltará, voltará para o povo, para nunca mais deixar de sair de novo.