PESQUEIRA PERDE NELSON VALENÇA

Criado: Sábado, 04 August 2012

                Desde o ano de 2006 que venho escrevendo crônicas sobre o Professor Nelson Valença – nosso astro maior – que atendendo ao chamado do Criador, acaba de nos deixar.

            Afirmo, sem querer bancar o tal, que não encontrei muita dificuldade. A razão é simples: ele me deu régua e compasso, como diz aquela música de Gilberto Gil. Conversando com ele, colhi os subsídios necessários para escrever sobre o homem e o artista que ele foi.

            Mas de repente, ele resolve empreender a sua “mudança” e, impelido pela tristeza e o respeito que sempre tive pelo grande mestre de todos nós, resolvi ensaiar esta crônica e confesso que não está sendo fácil. A velha memória está travando a cada palavra digitada.

            Se existiu alguém neste mundo que pode ser considerado como unanimidade, seu Nelson, com certeza, é o primeiro da lista. Nunca presenciei ninguém falar mal dele. Seus ex-colegas da antiga Rádio Difusora de Pesqueira sempre fizeram boas referências a respeito de suas atitudes. Não tinha a preocupação de se mostrar ou aparecer. Muito pelo contrário, a sua timidez, talvez tenha impedido que deslanchasse para o sucesso bem antes do que ocorreu.

            Mesmo sendo autor de mais de duzentas músicas de diversos gêneros, precisou que alguns amigos tomassem a iniciativa de promover a sua aproximação com Luiz Gonzaga, para, a partir daí, sair do anonimato como o compositor de gabarito que o Brasil conheceu e admirou.

            Lembro-me de trechos de uma entrevista que o Rei do Baião deu à Revista O Cruzeiro, salvo engano no início dos anos setenta, na qual disse que ia gravar umas composições de Nelson Valença, poeta matuto que havia conhecido em Pesqueira. Referindo-se a ele, disse mais ou menos assim: “O coroa é afinado que só um piano e compõe de forma moderna”.   

            Realmente, seu Nelson deu um toque diferente ao forró. Se, em algumas canções, carregou no romantismo, em outras, derramou doses de humor, externando o seu lado alegre de ser, apesar de pessoalmente, demonstrar o contrário. Alterou também no que se refere ao acompanhamento, adicionando instrumentos nunca antes utilizados pelos artistas do gênero. Foi, segundo os cronistas do ramo, um inovador.

            Convém salientar que ele, por ter sido professor de música durante muitos anos, não dependia de ninguém para compor. Tocava piano e violão muito bem, além de cantar. Fazia as letras, as melodias, os arranjos, além de toda a orquestração distribuída em partituras escritas de próprio punho e entregava a obra gravada em fita cassete.

            Não foi à toa que Luiz Gonzaga insistiu tanto para que ele fixasse residência no Rio de Janeiro. Mas ele preferiu voltar à sua terra e se dedicar aos jovens, ensinando-lhes Teoria Musical, Matemática e Moral e Cívica.

Sua paixão maior, depois da família, era o coral de quatro vozes que manteve, ora ajudado por um prefeito, ora desprezado por outro, mas graças ao espírito amadorístico dos componentes, projetou o nome de Pesqueira onde se apresentou.

            Seu Nelson foi o primeiro gerente da Rádio Difusora de Pesqueira (atual Rádio Jornal), inaugurada em 15 de novembro de 1951. Dotou a emissora de uma orquestra (Jazz Natambijara) e um conjunto regional que acompanhou sem dar vexames, os grandes cantores nacionais que se apresentaram na emissora. Muitos deles saíram elogiando. 

            Escreveu juntamente com o irmão Roberto e o colega Rossini Moura, várias novelas para a rádio que dirigiu. Atuou também como autor e produtor de peças teatrais, cujo teor de humorismo foi enaltecido por quem teve o privilégio de assisti-las.

            Enquanto a labirintite permitiu, ele comparecia ao meu estabelecimento comercial todos os dias a fim de comprar o pão. Tinha por hábito ir a um mercadinho vizinho, onde adquiria ração para cães e gatos famintos que os donos jogavam no seu quintal.

Eu largava tudo para conversar com ele. Os balconistas adoravam atendê-lo. Amigos comuns, em tom de brincadeira, diziam: “Walter pensa que eu venho aqui por causa do pão da padaria dele, mas é puro engano. O que eu gosto mesmo é de encontrar seu Nelson e bater esse papo saudável”. Pessoas de outras cidades, quando eram apresentadas a ele, demonstravam enorme satisfação por estarem diante de um ser tão importante. E ele nem aí!

            Infelizmente, faltando 23 dias para completar 93 anos, o maior artista pesqueirense de todos os tempos dá adeus aos conterrâneos, que tristes, lamentam a irreparável perda.

É a vida!